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segunda-feira, 30 de maio de 2011

VERGONHA

Enviado por e-mail pela Coordenação do Clube das Histórias

Projecto: Abrir as portas ao sonho e à reflexão

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Se desejar ler mais histórias ou textos de reflexão sobre diversos temas pode visitar o seguinte blogue:

http://historiasptodos.blogs.sapo.pt

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Gravura: João WernerCaim e Abel - gravura digital raster/vetorial - 42x60 cm - 03 de janeiro de 2010/código da gravura 233-10


Uma tarde de Primavera. O largo da estação do comboio. Um grupo de homens a beber cerveja em frente de um quiosque. Não há mais ninguém. Um homem desce de um autocarro. Tem uma mala na mão, passa pelos outros homens e entra no edifício da estação. O átrio está quase vazio.

O funcionário encontra-se na bilheteira.

— Um bilhete para o aeroporto de Frankfurt, por favor.

— Ida e volta?

— Não, só ida.

— Tem cartão de desconto?

— Sim, para a segunda classe.

— Nove euros e vinte.

O homem desliza uma nota de dez euros para a caixa que se encontra por baixo do vidro. O empregado imprime o bilhete e entrega-o através da caixa, juntamente com os oitenta cêntimos de troco. O homem recolhe o bilhete e o dinheiro. Procura o painel de informações electrónico e vê que o comboio para Frankfurt é um dos próximos a chegar. Vai parar no cais número três. Desce as escadas onde está sentado um grupo de jovens. Também há alguns cães. Uma rapariga levanta-se e dirige-se a ele:

— Tens uma moeda?

O homem, que ainda leva o troco na mão, entrega-o à rapariga.

— Obrigada.

O homem segue então pela passagem subterrânea e sobe as escadas para a plataforma número três. O cais onde se encontra está praticamente vazio, assim como o cais em frente. Os quiosques estão fechados, não se vêem funcionários da estação, apenas alguns passageiros andam por ali, sozinhos. O altifalante anuncia a passagem de um alfa pendular. No mesmo instante, passa uma seta prateada. Por alguns segundos toda a estação da pequena cidade estremece. O homem percorre a plataforma de uma ponta à outra. Depois, o altifalante anuncia a entrada do inter-regional de Stralsund para Frankfurt. O comboio chega. Uma porta abre-se diante do homem. Desce uma senhora com uma expressão indignada que exclama:

— Parece impossível! Que vergonha!

O cobrador desce pela porta do vagão-restaurante, que se encontra entre a 1ª e a 2ª classe. Dirige-se ao homem e pergunta-lhe:

— Tem bilhete para a 1ª classe?

— Não, para a 2ª.

— Então, suba lá mesmo no fim, por favor.

— Como?

— Sim, lá ao fundo. Vá depressa para a última carruagem.

— Mas porquê?

— Acredite que é melhor para si.

— Mas não vou conseguir chegar a tempo.

— Vai, sim, nós esperamos. Aqui à frente já não há lugar.

— Muito bem. Obrigado pelo conselho — responde o homem.

Puxa os rodízios da mala e corre para a última carruagem, arrastando a mala atrás de si. Os outros passageiros já subiram. Volta a encontrar a senhora que, ao chegar ao cimo das escadas e ao reparar no homem, repete novamente:

— É uma vergonha! Uma autêntica vergonha!

A senhora faz sinal na direcção do comboio. O homem olha e vê, atrás da janela da carruagem, um grupo de skinheads. Uns estão sentados, os restantes encostados à janela. Alguns têm latas de cerveja na mão. Um skinhead, a rir-se, aponta para o homem. Um segundo tenta abrir a janela, mas não consegue. Cospe, com raiva, contra o vidro, na direcção do homem e da senhora, e o cuspo fica a deslizar.

— No seu lugar, não apanhava esse comboio.

— Mas então, perco o meu voo? — diz o homem.

Olha indeciso para a carruagem. A senhora meneia a cabeça, pega na mala e desce as escadas. Ouve o comboio pôr-se em andamento e diz para si, a meia voz:

— Quem semeia ventos…

Karlhans Frank (org.)

Menschen sind Menschen. Überal.

München, C. Bertelsmann Verlag, 2002

(Tradução e adaptação)

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Caros leitores,

O Projecto intitulado Clube de Contadores de Histórias, nascido em 2006 na Escola Secundária Daniel Faria – Baltar, tem vindo, ao longo dos anos, a difundir-se de uma forma significativa, não só em Portugal, mas também no Brasil e nos países africanos de língua portuguesa. No sentido de assegurar a continuidade de referido clube, foi constituída uma equipa pedagógica, formada por professores de vários grupos disciplinares e provenientes de diversos estabelecimentos de ensino, que tomarão a seu cargo a selecção, preparação e envio de uma história semanal por correio electrónico, tal como habitualmente tem vindo a ser feito.

Esperando que o projecto continue a merecer a melhor atenção por parte do público leitor, despede-se com os melhores cumprimentos,

A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

acb@clubedashistorias.com

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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Projecto: Abrir as portas ao sonho e à reflexão - O BARCO DO AVÔ

Enviado pela Coordenação do Clube das Histórias

Gravura de João Werner. Pescador (Gravura digital vetorial "Flash"/ 06 de janeiro de 2011/ código da gravura 256-11)

 

O BARCO DO AVÔ

Conto Popular

Marisa vivia com a mãe e o avô numa casita com vista para o mar.

O avô era pescador e navegava no seu barquito, que tinha uma vela castanha, pelas águas do porto.

Umas vezes, o avô pescava perto da costa e Marisa gostava de ver o barquito serpentear por entre as rochas e as enseadas da baía. Noutras, partia ao cair da noite e então Marisa ficava a ver o barco embrenhar-se no vermelho dourado do crepúsculo. A seguir ia para a cama, satisfeita por saber que, quando o Sol despertasse por detrás dos montes, veria a vela castanha regressar à luz ténue da aurora.

Quando isso acontecia, Marisa e a mãe desciam até à ponta do molhe para se despedirem dele com grandes acenos, e o barco, levado pelo movimento da maré, mergulhava na neblina do horizonte, parecendo afundar-se naquela imensidão de onde apenas emergia a ponta do seu mastro.

Depois, quando o próprio mastro desaparecia, Maria e a mãe ficavam completamente sós.

— Ele vai voltar — prometia-lhe sempre a mãe. Por vezes, Marisa até sabia em que maré ele iria regressar, e nessas alturas corria para o cimo do monte que ficava por detrás da casa e não tirava os olhos do mar até a ponta do mastro surgir no horizonte.

— Vem aí o avô, vem aí o avô! — gritava entusiasmada.

Então, ela e a mãe corriam para a ponta do molhe para acenarem para o barco cuja vela castanha se agitava cada vez mais perto até que, por fim, tornavam a ver a cara sorridente do avô.

Também havia alturas em que os dias passavam sem ele voltar, o que deixava a mãe de Marisa muito preocupada:

— Estamos na época das tempestades — explicava então Marisa — e o avô pode ainda demorar sabe-se lá quanto tempo.

No entanto, continuava à espera de o ver regressar.

— Se a viagem foi perigosa, o avô ainda estará mais ansioso por nos ver — dizia.

Marisa aprendeu a reconhecer quando a maré estava alta, pois era a altura mais propícia para o barco entrar no porto. Era então que ia à procura dele.

Chegava a passar uma semana à espera ou mesmo duas... mas acontecia sempre o mastro aparecer e o avô voltar.

— Às vezes desejo que o avô não saia para o mar para não nos deixar sozinhas — disse-lhe Marisa após uma viagem que tinha durado vários dias.

          — Vou fazer-te a vontade — suspirou o velho. — Já não sou tão forte como era dantes e por isso não me atrevo a ir para tão longe como costumava. A partir de agora não me afastarei muito... ando de cá para lá e de lá para cá durante o dia, enquanto a maré me ajudar.

De início, Marisa ficou satisfeita porque assim tinha mais tempo para estar com o avô. Porém, começou a reparar que, de dia para dia, ele estava cada vez mais frágil e debilitado, e quase já não saía de casa.

— O avô já não vai para o mar? — perguntou Marisa ansiosamente.

— O único barco em que eu agora irei navegar é o que me levará para o outro mundo — respondeu o avô a sorrir.

Marisa suplicou-lhe:

— Não vá! Nunca vá para lá! — disse-lhe a chorar.

— Essa é a viagem para que eu sempre vivi — retorquiu-lhe serenamente o avô. — Explorei tudo o que me apeteceu neste mundo e agora anseio por descobrir o outro.

Pouco tempo depois o avô de Marisa morreu. O sino da igreja da vila repicou solenemente quando o enterraram no cemitério que dava para o mar.

— Adeus, avô — sussurrou Marisa à terra escura.

A seguir correu sozinha para a ponta do molhe.

— Adeus, avô — gritou à maré que baixava rapidamente. — Adeus, adeus.

As águas foram-se afastando da costa e ela permaneceu à espera, tanto tempo quanto o barco do avô costumava levar até desaparecer no horizonte longínquo. Entretanto, chegou a mãe que se sentou a seu lado.

— Já não o podemos ver — disse tristemente a mãe. — Mas creio que numa costa distante, numa outra terra, haverá alguém que o estará a ver chegar.

Lois Rock (org.)

Contos e Lendas da tradição cristã

Lisboa, Editorial Verbo, 2006

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Caros leitores,

O Projecto intitulado Clube de Contadores de Histórias, nascido em 2006 na Escola Secundária Daniel Faria – Baltar, tem vindo, ao longo dos anos, a difundir-se de uma forma significativa, não só em Portugal, mas também no Brasil e nos países africanos de língua portuguesa. No sentido de assegurar a continuidade de referido clube, foi constituída uma equipa pedagógica, formada por professores de vários grupos disciplinares e provenientes de diversos estabelecimentos de ensino, que tomarão a seu cargo a selecção, preparação e envio de uma história semanal por correio electrónico, tal como habitualmente tem vindo a ser feito.

Esperando que o projecto continue a merecer a melhor atenção por parte do público leitor, despede-se com os melhores cumprimentos,

A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

acb@clubedashistorias.com

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