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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Buscar lá no fundo mesmo

Por Bruno Bento.

“Buscar lá no fundo mesmo”.

2013-01-05 15.30.59Esta frase que ouvi e que marcará o tom da Associação Mucury Cultural neste 2013. Toni, trocador da linha de ônibus que liga Teófilo Otoni ao distrito de Maravilha disse a frase acima quando conversávamos sobre cultura enquanto esperávamos a saída do carro para percorrer quase 80 quilômetros, maior parte de terra, e chegar na Comunidade de São Julião 2.

São Julião é um dos fundos deste Mucuri. Não no sentido de distância ou exclusão (que já o foram), é um fundo, um dos lugares mais profundos de nossa cultura mucuriana. Desde o segundo semestre de 2011 tive oportunidade de estar em alguns destes fundos, Comunidade Quilombola de Água Limpa, a tribo dos Mocuriñ, São Julião e Córrego do Norte, os últimos origens de Pereira da Viola e Bilora, respectivamente.

Acabei de chegar de uma experiência única, revolucionária e perturbadora que provavelmente definirá os alicerces de nosso trabalho. Revolucionária não no sentido clichê barato, mas de um retorno, é no sentido astronômico mesmo, uma volta, um retorno. E perturbadora pois sacudiu o ritmo ainda um tanto quanto superficial de nosso trabalho.

A Convite de Pereira da Viola e da Associação Quilombola Vaz Pereira, fui estar nas entranhas desta nossa acre região. O sol provando o quão bravo somos em nossa origem, as mulheres e homens enfrentando-o com compaixão, esta sim uma boa palavra. Não há reclamação. Nem resignação. Há vida.

2013-01-08 08.20.25A beleza dos lajedos, serras e grotas, matas e dos bichos todos, do canto da lambu e da fogo-pagou à gritaria das maritacas provocam um efeito indescritível, só pode ser compartilhado, não descrito. À madrugada o trabalho, quando do sol quente, chegam-se à sombra e o descanso do trabalho, nestas horas há de tudo: conversa, comida, bebida, música, conversa, riso, sabedoria popular, conversa, reza e conversa. O sol esfria e alguns arrematam o serviço antes começado. Depois, mais uma rodada generosa de prosa, risada, remedação e iniciam-se os preparativos para a função.

Recomeçado por uma promessa há quase 10 anos, a Folia de Reis da comunidade está na hora de seu recomeço diário, a função desde o dia 25 de dezembro passado. Chegam a sanfona, a viola, a rabeca, o triângulo, o violão, a caixa de folia, os pandeiros e seus tocadores, as pastorinhas e as vozes todas, aqui muitas. Uniformizados e com a bandeira à frente saem atrás das casas e dos presépios, estes feitos de tudo quanto há. Nestes presépios inclusivos estão desde o Menino Jesus, os bichos e bonecos de barro do cumpadre Ilso, aos dinossauros de plástico que as crianças estão brincando, neles há tudo divera.

2013-01-06 00.19.31Esta função regada com muita reza, café, chá, água, cachaça e vinho e mastigada às pamonhas, biscoitos e bananas, percorre e leva às lágrimas (de alegria a saudade) muitos de nós. As vespas das festas até o dia 6 de janeiro, este ano fechadas temporãs no dia 7 na casa da matriarca Mãe Augusta.

A tristeza de ir embora mesmo depois de perder a volta algumas vezes é recompensada pela claridade dada às ideias. Tudo é ensinamento. Tudo é tranquilidade. Mesmo as desgraças. Estou usando estes pontos, pois não há reticências nestes casos. É assim.

É deste povo sofrido, que por seu trabalho, cantoria e louvação não passa fome, nossa cultura popular. Não há condições de falarmos em setor cultural, economia criativa, profissionalização sem esta perspectiva de profundidade. O Mucuri é seus grotões. Isso não é “pejorativo, negativo e negador” como uma vez me disse um renomado pesquisador da cultura popular, isso nossa realidade. O sol e a chuva que não têm dó quando estão aí formaram isso. Uma região linda, acre, fértil, dura, cravada de riquezas e desgraças, onde a água cavou a terra entre lajedos e as pedras os lugares mais férteis do Mucuri, as grotas, os grotões, onde estas comunidades florescem, como aquelas flores do mato: fortes e coloridas.

2013-01-06 23.50.22Alguns tentam imprimir à identidade neste vale, vários conceitos para o identificamos, uma vez que não somos simples e categoricamente as Minas ou os Gerais, de forma alguma. Esta é uma discussão reiniciada há pouco e ainda muitíssimo delicada, que pelo jeito começará a ser esmiuçada cada vez mais, mas estes são outros quinhentos.

O certo é que nosso fundo são esses nossos Grotões, é de lá que viemos e eles têm de ser o sustentáculo de todo o nosso trabalho. Conseguir ter esta clareza já com as poucas incursões que tive a honra de participar junto às comunidades e familiares de Bilora, e Pereira da Viola, além do Primeiro Encontro de Violeiros de Teófilo Otoni, das ações do Instituto Sociocultural Viva Viola, da visita à Comunidade Quilombola de Água Limpa e na tribo dos Mocuriñ nos últimos dois anos.

E neste ano que o cenário cultural de Teófilo Otoni e do Mucuri promete, esta será uma de nossas reflexões e diretrizes: “Buscar lá no fundo mesmo”.

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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Na Trilha Guerreira dos Borun: os Mocuriñ

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Há poucos dias tivemos a oportunidade de conhecer a indigenista Geralda Soares. Ela representa o esforço pela valorização e resgate da cultura e história indígenas de toda a porção Leste de Minas Gerais, região que engloba os vales do Rio Doce, Jequitinhonha, Mucuri e São Mateus.

É esta região qual diversas etnias indígenas se refugiaram até o século XIX dos “portugueses”, dos Kraí (os loucos), dos brancos.

Estas etnias foram chamadas de Botocudos, em alusão às tampas de barris de bebida alcóolica.

Tínhamos aí uma questão delicadíssima, a Alteridade. Os brancos, que se pensavam os homens de verdade contra os botocudos, os selvagens, as tampas de barris... Por outro lado tínhamos os Borun, nome que os índios se chamavam, significando “homens verdadeiros” em contraposição aos Kraí, os de cabeça doida.

Não poderia haver outra coisa: guerra, massacre, sangue.

A história no Mucuri também é assim, com suas ressalvas, com suas exceções. Sempre poucas.

E no fim das contas temos a história dos vencedores: os brancos, os Kraí.

Os indígenas que não morreram, tentaram a todo custo mimetizarem-se. Muitos conseguiram, muitos desapareceram.

O trabalho da nossa amiga Geralda Soares é não somente o de contar a história dos que “perderam” a guerra, as também de buscar aqueles que abandonaram o ser índio para sua própria sobrevivência. Este é o caso dos Mocuriñ.

Passaram décadas como não índios, mas no início do século XXI, retomaram sua condição e história indígenas e estão, com muito trabalho, revisitando sua ancestralidade, buscando e interpretando sua existência, pesquisando e retomando suas tradições.

No dia 15 de abril, fomos com ela para conhece-los. Estávamos ansiosos. A expedição até a comunidade indígena dos Mocuriñ contou com a presença de Ademar Lemos, Leonardo Cambuí, Bruno Bento e claro, Geralda Soares.

Não saímos tão cedo quanto imaginávamos, mas chegamos a tempo do almoço que Dona Castorina tinha-nos preparado: frango caipira, arroz, feijão e macarrão. Estava delicioso.

Aos poucos foram chegando, uns sozinhos, outros em grupos, em núcleos familiares, e cada um com seu cachorro e um papagaio. Logo tínhamos mais de 10 pessoas discutindo sua história, as notícias dos familiares, daqueles que não puderam reunir-se, dos que ainda moram em outros lugares e de suas inquietações como comunidade e como indígenas. Assistimos ao vídeo de um casamento recente Maxakali. Foi discutida a participação em eventos nos quais a condição indígena é o principal tema, e as mulheres presentes solicitando mais participação.

Das mais de dez pessoas que dissemos, haviam 4 gerações, avós, filhos, netos e bisnetos. Os últimos já nasceram índios, Mocuriñ!

Um assunto nos chamou bastante atenção, a construção do Kieme, a casa coletiva onde as reuniões, encontros, discussões e festas ocorrem, é o ponto nevrálgico da aldeia, da comunidade. Esperamos estar lá para vermos e registrarmos este momento importantíssimo na retomada de no reapoderamento do ser índio dos Mocuriñ.

As fotografias retratam este nosso encontro e os momentos das discussões, e são nosso presente, aos indígenas deste nosso Mucuri, do Leste, Jequitinhonha e São Mateus, e são nosso presente aos Mocuriñ, à nossa nova mas grande amiga, Gêra, e a todos os Dias do Índio, todos os dias!

Para um pouco sobre a história dos Mocuriñ, trazemos um trecho extraído do livro Na Trilha Guerreira dos Borun, de Geralda Soares[1]:

O Povo Mocuriñ é formado pelos descendentes do Capitão Pohok, condutor de longa migração de vários povos, saindo da proximidade dos colonos europeus no Vale do Mucuri e se estabelecendo no vale do Itambacuri.

Pohok torna-se aliado dos Frades Capuchinhos na fundação do Aldeamento de Itambacuri em 1873. E avô de Domingos Ramos Pohok ou Pacó, primeiro professor indígena bilíngue de Minas Gerais.

Os Mocuriñ vivem hoje na Comunidade dos Xavier, no Município de Campanário, no Vale do Mucuri.

Domingos Ramos Pacó, sua filha Noemia Xavier e o indígena Chico Bugre são os antepassados mais próximos dos atuais Mocuriñ.

Ao todo são aproximadamente 100 pessoas que vivem na área rural e urbana desta região. Algumas famílias migraram para São Paulo e Belo Horizonte.

Domingos Ramos Pacó escreve a História de Itambacuri que é arquivada no APM (Arquivo Público Mineiro) em Belo Horizonte por Frei Olavo Timmers, OFM.

Em 1986 este documento e publicado pelo economista Eduardo Ribeiro no livro "Lembranças da Terra do Jequitinhonha e Mucuri", e em 2006 uma equipe de pesquisadores do CEDEFES e do Conselho dos Povos Indígenas de Minas Gerais e do GTME faz os primeiros contatos com a comunidade dos Xavier, iniciando aí seus contatos com entidades ligadas a Causa Indígena, com os demais indígenas e com a FUNAI.

Passam então a participar das atividades organizadas pelos indígenas e apoiadores.

Em 2006 são oficialmente apresentados na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O povo Mocuriñ luta pelo seu reconhecimento pelos órgãos oficiais, pelo direito a um atendimento diferenciado na educação e saúde e pela ampliação da área de 19 alqueires em que vivem.

O reconhecimento do Povo Mocuriñ como mais um povo indígena de Minas e o resgate de uma divida histórica do Vale do Mucuri, de Itambacuri e da Sociedade para com aqueles que sobreviveram ao longo processo de exclusão e discriminação dos indígenas nesta região.

[1] SOARES, Geralda Chaves. NA TRILHA GUERREIRA DOS BORUN. Belo Horizonte: Núcleo de Publicação do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix., 2010. P. 209-211.

Confira as fotos:

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