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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Economia criativa: um belo projeto que não saiu do papel

A ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda, fala de seu projeto de economia criativa, fazendo certo mea culpa assume algumas falhas e faz uma reflexão sobre a economia criativa no Brasil. Ela tem uma coluna quinzenal n’O Cafezinho.

D’O Cafezinho

Por Ana de Hollanda

Ao assumir o Ministério da Cultura senti o peso da responsabilidade de lidar com um patrimônio em grande parte intangível e, por isso mesmo, de dificílima mensuração. Minha estreita relação com o mundo da criação artística e produção cultural no Brasil não me permitia ignorar consideráveis impasses que dificultam as condições de criação, produção, circulação, difusão e acesso aos bens culturais. O país é vastíssimo não só em dimensão territorial como em diversidade cultural. É fundamental não apenas que se respeite as especificidades regionais ou de estilo, como se fomente e estimule toda cadeia produtiva para que o acesso a esses bens se torne realidade aqui e no exterior. Por sinal, lembro que em inúmeros levantamentos internacionais acerca da imagem positiva do nosso país, prontamente se destacam a cultura e a criatividade do seu povo.

Paralelamente, desde o final dos anos noventa do século passado venho acompanhando notícias vindas do Reino Unido e estudos da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas o Comércio e o Desenvolvimento) sobre economia criativa. O novo conceito de economia voltado para a dimensão intangível da criação sublinha o valor agregado à indústria, como, por exemplo, no caso do design, da moda ou da arquitetura. Abarca também vários segmentos desde o artesanato, passando pelas artes, chegando às indústrias culturais e compreende toda a teia que envolve criação, produção, distribuição, circulação, difusão e consumo. Esses levantamentos na economia mundial do século XXI apontaram que os setores criativos são os que mais crescem com sustentabilidade e inclusão. Paradoxalmente, apesar da nossa tão aclamada criatividade e do Brasil ocupar, atualmente, a 6ª posição na economia mundial, ocupamos, timidamente, o 36º lugar em relação aos países exportadores de bens criativos.

É nítido que, informalmente, a produção cultural e suas extensões diretas e indiretas movimentam valores bem superiores ao que é contabilizado oficialmente. Geram um número desconhecido de postos de trabalho temporários, também não computados, principalmente em grandes eventos populares. Não há dúvida de que essa informalidade e as conseqüentes inseguranças social e financeira são altamente prejudiciais não apenas à economia, mas aos profissionais desses setores.

Tais fatores me fizeram ver o quão premente se fazia a busca de meios que estimulassem a sustentabilidade econômica do setor cultural, independente dos eventuais apoios a projetos através de editais públicos e leis de mecenato. Foi esta a razão fundamental para que se criasse a Secretaria da Economia Criativa (SEC), logo no início da minha gestão no Ministério da Cultura. A competente equipe comandada pela secretária Claudia Leitão se debruçou sobre a matéria e desenvolveu o plano da SEC para o período 2011-2014, assim como o arrojado Plano Brasil Criativo. O Plano foi apresentado à Presidenta Dilma que se mostrou interessada e imediatamente incumbiu a Casa Civil de coordenar os trabalhos junto aos onze ministérios envolvidos, para depois chegar às empresas públicas e privadas.

Registro que enquanto se multiplicavam as discussões para a adequação do Plano, a SEC quase nada avançou em relação à responsabilidade que lhe cabia na gestão do projeto dentro do Ministério da Cultura. Me penitencio por não ter percebido a tempo que estava sendo descumprido o primeiro passo: o fundamental mapeamento de toda cadeia produtiva da cultura que, após ampla pesquisa, seria disponibilizado na página oficial do MinC. Previa-se essa ferramenta para que os interessados buscassem informações sobre a produção cultural na sua diversidade, os meios de produção e distribuição e como ter acesso a elas. A criação artística, independente de ingerência governamental, teria condições de impulsionar um dinâmico mercado onde não haveria falta de oferta ou procura. No entanto, antecipou-se etapas seguintes como a criação do projeto Criativa Birôs, voltado para eventuais empreendedores culturais, a ser desenvolvido em parcerias alternadas, mas que, embora bastante anunciados, na realidade ainda não foram implantados. Uma infinidade de seminários passaram a ocupar a agenda da SEC. Porém, além de exposições teóricas e discussões acadêmicas, pouco se avançou em termos de gestão prática do setor. Em meados do ano passado preveni a Secretária ao cobrar, entre outras providências, uma aproximação com os verdadeiros profissionais da cultura, vinculados a outras secretarias ou autarquias do MinC. O objetivo era de que conhecesse melhor o modo prático de funcionamento, necessidades e a forma como cada área busca seu sustento. Não obstante os esforços desenvolvidos, reconheço, com frustração, que praticamente nada se avançou nesses dois anos e meio, vista a ausência de qualquer resultado beneficiando diretamente o setor cultural. Assim, o que, a meu ver, seria o plano inovador da gestão da Presidenta Dilma para a Cultura lamentavelmente pode estar fadado a ser arquivado como um belo projeto teórico que nunca saiu do papel.

PS: o texto acima já estava escrito quando tomei conhecimento, pela imprensa, da substituição da Secretária Claudia Leitão. Faço votos de que o novo secretário avance, com sucesso, nas políticas voltadas para a economia criativa.

Retirado d’O Cafezinho em 12/08/13 do endereço:

http://www.ocafezinho.com/2013/08/10/economia-criativa-um-belo-projeto-que-nao-saiu-do-papel/#sthash.KNmCOgko.dpuf

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segunda-feira, 15 de julho de 2013

O MUSEU E SUAS FUNÇÕES CULTURAIS E SOCIAIS

D’O Cafezinho

Coluna Grão Fino

Por Ana de Hollanda, ex-ministra da Cultura.

Um setor que, no Brasil, vem passando por uma transformação formidável em relação à sua importância cultural e social é o de museus. Ainda há poucos anos, a visão dominante era a de que neste país essas instituições se reduziam a meros depósitos de velharias desinteressantes, obras de qualidade e autenticidade duvidosas ou coleções acumuladas sem qualquer critério. Não se pode negar que em muitos casos essa imagem, lamentavelmente, era procedente. Mas a presença de bons museus históricos, principalmente no Rio de Janeiro, de arte em São Paulo e temáticos espalhados pelo país já seria suficiente para atrair um público fiel, ao menos nessas cidades.

Brasileiros, em geral, têm por hábito consumir e usufruir a vida cultural e, com maior ou menor freqüência, sentem-se motivados a assistir espetáculos de teatro, musica, dança, circo, ler livros, ver filmes, escutar música e freqüentar festas populares. Mas o crescente número de visitantes a museus continua aquém do seu potencial, mesmo porque o que vem reforçando a média geral de freqüentadores ainda são as eventuais megaexposições trazidas do exterior.

Alguns fatores contribuíram historicamente para manter o público afastado dessas casas. Não dá para negar a influência da nossa tradicional cultura colonizada, que relega tudo produzido no país a patamares inferiores. Não por mero acaso, muita gente quando viaja para fora do país inclui museus em sua programação obrigatória, enquanto aqui talvez nunca tenha tido curiosidade de conhecer algum. Esse fenômeno se repetiu em outras áreas. Um exemplo clássico é o cinema nacional que até há poucas décadas sofria tal preconceito que, pode-se dizer, sobreviveu graças a um público aficionado e raríssimas salas de exibição. Mas, sem dúvida, as atenções com seleção do acervo, museografia, museologia, atendimento ao público, segurança e divulgação de suas atividades, entre outros cuidados, aumentaram nos últimos anos. As instituições ligadas ao governo federal, estadual, municipal, a fundações estatais ou privadas tiveram que se adaptar a um padrão contemporâneo e mais exigente para sobreviver. Nesse sentido, os programas e campanhas ligados ao Sistema de Museus, do IBRAM, prestam uma ajuda essencial.

Ainda não existem números precisos sobre perfil e aumento de visitantes aos museus brasileiros, mas as instituições de excelência inauguradas recentemente, ou a serem inauguradas, pela afluência de público que têm atraído, comprovam o interesse popular. Por outro lado, é notável a existência e proliferação de pequenos museus comunitários que refletem a história, modo de vida, desenvolvimento regional e características culturais daqueles habitantes, ao mesmo tempo em que reforçam a auto-estima e sentimento de pertencimento. Tanto grandes quanto restritos museus, assim como os temáticos em geral, com seus arquivos e acervos, exercem funções educativas para as novas gerações e vitais para preservação da nossa memória.

Escolhido para sediar a Conferência geral do ICOM – Internacional Council of Museums, que acontecerá no Rio de Janeiro entre 10 e 17 de agosto, o Brasil, definitivamente, tem o reconhecimento internacional em tema no qual até recentemente era relegado a país periférico pela comunidade dos países desenvolvidos.

Não vejo isso com ufanismo, mas com confiança de que nossa história e nossas instituições estão dando nova contribuição para uma visão global contemporânea de cultura.

Retirado d’O Cafezinho em 15/07/13 do endereço:

http://www.ocafezinho.com/2013/07/14/a-funcao-social-do-museu/

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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Salve Cultura Viva!

Do O Cafezinho

Por Ana de Hollanda*

Ao abordar o programa Cultura Viva do Governo Federal, não há como negar, em sua concepção, uma visão antropológica que enxerga na cultura a tradução dos conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes e outros hábitos adquiridos pelo ser humano enquanto membro de uma sociedade. Essa cultura é mutante mas, popular ou erudita, reflete o modo de ser ou pensar de uma determinada comunidade onde se insere um pólo cultural, que veio a ser reconhecido como Ponto de Cultura. A criação do projeto dos Pontos de Cultura em 2004, pelo então ministro Gilberto Gil, foi um marco de mudança de rumo do Ministério da Cultura, dentro do espírito de gestão do Presidente Lula.

Como qualquer programa inovador, após alguns anos de teste deve passar por um diagnóstico qualitativo em relação aos objetivos e resultados alcançados. Nesse sentido, o MinC encomendou ao IPEA uma avaliação criteriosa para que o Ministério, apoiado em resultados concretos, pudesse redirecionar o programa para atender a uma necessidade de readequação e realinhamento, buscando sempre alcançar melhor patamar de desempenho do Cultura Viva. A partir de 2011, o Ministério da Cultura, com apoio e orientação da Controladoria Geral da União, se viu obrigado a diagnosticar a situação legal de todos os contratos em andamento e vistoriar pessoalmente as centenas de Pontos que, apesar de oficializados, nunca haviam recebido a visita de representante do Governo Federal.

Minha prioridade, como Ministra, era a de honrar os compromissos assumidos, a maioria dos quais estava ha mais de um ano sem receber a devida parcela. Por outro lado, buscamos soluções jurídicas e administrativas junto aos órgãos competentes, para adequar instrumentos, procedimentos e garantir a manutenção do Programa que integra 3.703 Pontos de Cultura nos 26 estados e Distrito Federal, atingindo cerca de mil municípios. Nesse processo, boa parte dos orçamentos de 2011 e 2012 foram destinados a quitar restos a pagar dos Pontos e Pontões de Cultura deixados pela administração anterior. No mesmo sentido, dos 172 milhões de reais inscritos nessa condição, 75 milhões foram cancelados, por orientação da CGU, devido a irregularidades nos contratos ou documentações.

É compreensível que a ameaça de possíveis mudanças, alimentada por alarmismos em função do cancelamento de parte dos convênios auditados, tenha gerado inseguranças. Mas o objetivo desse levantamento visava exatamente garantir a continuidade do programa, afastando as suspeitas de não ter condições de cumprir sua vocação.

A partir de março de 2012, o Ministério da Cultura através da Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural, em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), num trabalho conjunto com os parceiros e Redes de Pontos de Cultura, promoveu uma série de encontros e seminários visando o Redesenho do Programa Cultura Viva. O redesenho, fruto de diálogos abertos entre o poder público e os representantes dos pontos, auxiliados pelo olhar técnico do IPEA, foi mantido pela Ministra Marta Suplicy, num claro sinal de que o espírito da gestão da Presidenta Dilma é também o de manter os programas culturais que apóiem os movimentos comunitários organizados.

Longa vida ao Cultura Viva!

* Ana de Hollanda, ex-ministra da Cultura do governo Dilma, assina a coluna quinzenal Grão Fino, no Cafezinho.

Retirado do O Cafezinho em 03/06/13 do endereço:

http://www.ocafezinho.com/2013/06/02/ana-de-hollanda-e-o-cultura-viva/

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Marta Suplicy toma posse e promete trabalho

Retirado do site do MinC em 14/09/12 do endereço:

http://www.cultura.gov.br/site/2012/09/13/marta-suplicy-toma-posse-e-promete-trabalho/

Na solenidade a ministra destacou o papel da cultura como identidade do povo brasileiro

Em clima de cordialidade e tranquilidade, Marta Suplicy assumiu hoje o comando da pasta do Ministério da Cultura, durante cerimônia de posse realizada no Palácio do Planalto, diante da presidenta da República, Dilma Rousseff.

Em seu discurso, a nova ministra agradeceu o convite da presidenta e destacou o papel da cultura como identidade do povo brasileiro.

“Existe também a realização de trabalhar numa área que aprecio e sei de sua relevância. Mas, mais que tudo, é trabalhar sob o comando de uma mulher forte, arretada e competente, a quem admiro e com quem dialogo muito bem”, disse Marta Suplicy.

A nova ministra elogiou seus antecessores Gilberto Gil, Juca Ferreira e Ana de Hollanda, a quem dirigiu palavras de carinho pela sua determinação e coragem que demonstrou à frente do Ministério. “Coragem e determinação eu também vou precisar ter”, pontuou.

Avanços

Marta Suplicy falou sobre os avanços da pasta da cultura desde o governo Lula e homenageou o peemedebista e presidente do Senado, José Sarney, pela sua visão inovadora ao criar o Ministério da Cultura e pensar a primeira lei de incentivo à cultura, a chamada Lei Sarney.

A presidenta da República Dilma Rousseff, em seu discurso, afirmou ter certeza de que Marta Suplicy reúne as qualidades necessárias para conduzir o ministério.

“Tenho certeza de que a ex-senadora e ex-prefeita, minha amiga e companheira Marta Suplicy está à altura de levar à frente o Ministério da Cultura, transformando, a cada momento, a cultura numa prioridade central do meu governo”, disse a presidenta.

A ex-ministra Ana de Hollanda fez um balanço de sua gestão, destacando ações como a Economia Criativa, Pontos de Cultura e outras atividades que segundo ela, têm feito a diferença na gestão da cultura no Brasil.

Ana lembrou que o governo Dilma “é um governo de continuidade” em relação à gestão do presidente Lula. Assegurou que Marta Suplicy tem sensibilidade, capacidade e que reúne todas condições para exercer o cargo.

Estudar o Ministério da Cultura

A ministra antecipou que vai se dedicar, inicialmente, sobre a aprovação do Vale Cultura – que irá beneficiar, com R$50,00 por mês trabalhadores com carteira assinada que recebam até cinco salários mínimos, para a compra de livros, ingressos de shows e filmes etc.

“Vou me debruçar sobre o Vale Cultura e vamos ver se a gente consegue aprovação na Câmara, porque, junto com a aprovação, ontem, do Sistema Nacional de Cultura, estaremos dando um passo gigante”.

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(Texto: Waldemar Gadelha, Ascom/MinC)
(Fotos: Lula Lopes)

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terça-feira, 5 de junho de 2012

Publicado decreto que altera estrutura do Ministério da Cultura

Retirado do Cultura e Mercado em 05/06/12 do endereço:

http://www.culturaemercado.com.br/politica/publicado-decreto-que-altera-estrutura-do-ministerio-da-cultura/

Da Redação

O Diário Oficial da União publicou na última sexta-feira (1/6), a nova estrutura regimental do Ministério da Cultura. O decreto 7743/2012, assinado pela presidenta Dilma Rousseff, traz a formação de duas secretarias: a da Economia Criativa (SEC) e a da Cidadania e da Diversidade Cultural (SCDC).

Entre as atribuições definidas compete à SEC propor, conduzir e subsidiar a elaboração, implementação e avaliação de planos e políticas públicas para o desenvolvimento da economia criativa brasileira e coordenar ações para o seu desenvolvimento. Essa secretaria conta com as diretorias de Desenvolvimento e Monitoramento e de Empreendedorismo, Gestão e Inovação.

A SCDC tem como atribuições, planejar, coordenar, monitorar e avaliar políticas, programas, projetos e ações para a promoção da cidadania e da diversidade cultural brasileira. Também é competência dessa secretaria promover programas, projetos e ações que ampliem a capacidade de reconhecimento, proteção, valorização e difusão do patrimônio, da memória, das identidades, e das expressões, práticas e manifestações artísticas e culturais, entre outras.

A SCDC agrega a Diretoria da Cidadania e da Diversidade Cultural.

Além dessas novas secretarias, o MinC continua com as secretarias de Políticas Culturais (SPC); Audiovisual (SAv); Articulação Institucional (SAI); e de Fomento e Incentivo à Cultura (SEFIC).

Educação e Comunicação para Cultura – A diretoria de Educação e Comunicação também foi criada com o decreto, no âmbito da Secretaria de Políticas Culturais (SPC), com o intuito de desenvolver uma Política Nacional de Integração entre Educação e Cultura que promova o reconhecimento das artes como campo do conhecimento e dos saberes culturais como elemento estratégico para qualificação do processo cultural e educativo; e de reconhecer a importância central ao enlaçamento da Cultura à Comunicação para garantir o fortalecimento da diversidade e pluralidade cultural, fundamentais para o alcance da plenitude cidadã.

O decreto mantém, também, as instituições vinculadas em autarquias – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan); Agência Nacional do Cinema (Ancine); e o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) – e as fundações – Casa de Rui Barbosa (FCRB); Palmares (FCP; Nacional de Artes (Funarte); e Biblioteca Nacional (FBN).

Leia aqui o decreto na íntegra.

*Com informações do site do MinC

Redação http://www.culturaemercado.com.br

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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Dois dedos de prosa sobre gestão e Ministério da Cultura

Mais um tantinho de conversa sobre o MinC e a Ministra.

Retirado do Cultura e Mercado em 13/04/12 do endereço:

http://www.culturaemercado.com.br/pontos-de-vista/dois-dedos-de-prosa-sobre-gestao-e-ministerio-da-cultura/

Por Gunter Axt:

Segue o debate em torno da eterna reforma da Lei Rouanet. Já escrevi há algum tempo o que pensava a respeito e, confesso, não mudei muito de ideia desde então. Foi um alento constatar que o projeto de reforma da Lei elaborado no fim do Governo Lula não passou até o momento. Era um projeto ruim, fundamentado em premissas equivocadas, que poderia esvaziar o componente democrático da Lei, ampliar o entulho burocrático, reforçar o dirigismo estatal, sem lograr aprimorar o fortalecimento da cultura. Em favor daquele projeto, dizia-se que havia sido submetido a amplos debates. Bom, todos sabemos o quanto o assembleísmo se presta a manipulações. É verdade que entre a proposta inicial e a final avanços se registraram e sugestões importantes foram incorporadas, mas ainda assim era um projeto precário. Fez bem a Ministra Ana Buarque de Hollanda em desacelerar o processo para poder retomar a reflexão sobre as mudanças propostas. São, portanto, injustas as críticas que ela vem recebendo por se fechar ao diálogo. Acho que, pelo contrário, neste aspecto, ela reabriu o debate, começando por retomar a reflexão do próprio Ministério a respeito. Cabe verificar o que fará em seguida.

Alguns jornais do Nordeste andaram dizendo na semana retrasada que a Ministra Ana Buarque é uma das poucas unanimidades no País – todos quereriam a saída dela do Ministério! Não vejo assim. O que existe são facções ruidosas, dentro do próprio PT, que querem desalojar a Ministra, retomando protagonismo na condução, por exemplo, das reformas pretendidas para a Lei Rouanet.

E isto está mais do que patente do manifesto de um punhado de intelectuais publicado no dia 18 no Estadão. Por traz do palavrório algo pedante, próprio de artigos acadêmicos, mas em dessintonia com a pretensão de estimular um debate com a sociedade civil, há muita encheção de linguiça, muito qué qué qué sobre globalização, com o quê todo mundo concorda de antemão, até, mas conteúdo mesmo, é pouco. De concreto, no que tange ao debate sobre políticas culturais, diz-se apenas que a Ministra não se abre convenientemente ao diálogo.

Ora, até não discordo que a comunicação do MinC venha sendo meio escalafobética e até ausente. Desde que trocou o Governo deixei de receber boletins eletrônicos sobre as atividades do MinC que eram antes semanalmente enviados ao meu e-mail. A trapalhada comunicativa, por exemplo, fica evidente na série de twitts laudatórios emitidos pelo twitter oficial do MinC durante uma visita de Ana de Hollanda a Belém do Pará: qualquer estagiário de comunicação sabe que não se pode confundir divulgação com puxação de saco e com perucagem desbragada, sobretudo em um blog oficial.

No entanto, comunicação deficiente não é motivo suficiente para derrubar um Ministro, como pede o manifesto. Quanto às tais denúncias envolvendo o Ecad, parece que as explicações estão sendo oferecidas. Acho que todos nós, e especialmente os intelectuais, temos o dever de ouvir o que todos têm a dizer antes de embarcarmos no denuncismo. Se o conjunto de explicações não for convincente, ok, vamos questionar o que aí está!

Da Marilena Chauí, uma das signatárias do tal manifesto, não se estranha o procedimento, pois ela há muito tem seus escritos considerados datados, sem mencionar que sua credibilidade já foi razoavelmente corroída pelo excesso de partidarismo. Isto é, suas análises são frequentemente toldadas pela paixão partidária. Aí fica mais complicado discutir política pública, né?

Já a presença dentre os signatários de Suely Rolnik – que inclusive me deu a honra de participar com um excelente artigo (“Geopolítica da Cafetinagem”) num livro que organizei (“Brasil Contemporâneo: ensaios sobre um país incógnito”) – é menos óbvia, pois Suely é respeitadíssima pelo magnífico trabalho. Gosto em particular de um livro dela sobre os silêncios do discurso…

E falando em silêncios, o Manifesto em tela desconhece tudo o que se fez no MinC antes da Era Lula. De fato, durante os oito anos do Governo Lula, o MinC cresceu de importância, inclusive registrando uma bem vinda ampliação do orçamento. Não há quem não o reconheça. Mas não se pode ignorar que o que se fez foi possível também graças a algumas boas ações promovidas anteriormente. A própria Lei Rouanet é de 1991! Bem anterior ao Governo Lula, portanto. E notemos que seu principal mérito talvez tenha sido justamente – o que é um dos pontos nos quais martela o manifesto – a contribuição para a profissionalização do mercado cultural no Brasil e para a ativação em larga escala da produção de bens simbólicos, algo estrategicamente fundamental como reação soberana no contexto de uma globalização financeira, marca da passagem do século XX para o século XXI.

Ora, um manifesto assim não é a favor da cultura, mas a favor de um determinado partido. Tudo indica que estamos falando aqui de uma guerra de posições dentro do próprio PT. É aquilo que os jornalistas políticos chamam ironicamente de “fogo amigo”.

A propósito, o manifesto dos intelectuais, como ficou conhecido – e não nos surpreendamos se for esquecido muito rapidamente – pode ser lido em cotejo com a tal carta aberta que a respeitadíssima e amadíssima atriz Fernanda Montenegro mandou logo em seguida para a Presidente Dilma Rousseff, sugerindo o nome de Danilo Miranda, diretor do SESC, para o lugar da Ministra Ana de Hollanda. Ninguém questiona a competência e a experiência de Danilo em matéria de direção cultural. Não há dúvidas que é um dos nomes a ser lembrado cada vez em que se pensa em titulares para a pasta da cultura no Brasil. Mas vamos combinar que é meio constrangedor para alguém do seu escol afirmar-se na esteira da demolição algo leviana dos outros. Posso estar enganado, mas lidos os dois documentos conjuntamente, fica a impressão de que o manifesto dos intelectuais cheira a coisa encomendada…

Se assim é, tem tudo para funcionar como um tiro pela culatra, no pé mesmo! Afinal, uma Presidente firme e decidida como Dilma Rousseff jamais se deixaria emparedar publicamente por meia dúzia de intelectuais. Se a Presidente alvitrava substituir a Ministra, não é agora que o fará. Vamos esperar sentados!

O chato desse tipo de polêmica, é que o debate vai se revestindo de conteúdo pessoal, enquanto os aspectos realmente objetivos da política cultural vão sendo relegados ao segundo plano. Há sim críticas que podem ser endereçadas a atual gestão. No último ano, por exemplo, algumas tentativas feitas de ajuste da Lei Rouanet embaralharam o seu funcionamento. Uma profusão de instruções normativas ensejou instabilidade jurídica. Outro problema teve a ver com as idas e vindas no que respeita à dinâmica de gestão dos pareceristas, algo que, inclusive, o próprio Ministério reconheceu e tentou já corrigir. Num primeiro momento, valorizou-se excessivamente o papel de pareceristas, muitos dos quais despreparados, que emitiram pareceres atrapalhados, prejudicando a execução de projetos viáveis, impondo aos seus administradores a tortura de uma interminável via crucies de recurso sobre recurso, algo que, ao fim e ao cabo, só encareceu e empanou a gestão da cultura. Há, além disso, tratamento diferenciado aos projetos propostos, como indica a aprovação em tempo recorde do projeto de restauração da ponte Hercílio Luz em Florianópolis, com autorização de captação milionária, ao passo que outros projetos, pequenos e singelos, patinam por meses a fio nas malhas da burocracia do MinC.

Entendo, no entanto, que inconsistências do sistema fazem parte do processo. Todas as administrações as enfrentaram e continuarão encarando-as. Cabe, na minha compreensão, aos intelectuais e agentes da cultura apontarem-nas construtivamente, para que ajustes possam ser feitos. Não vejo má vontade na atual gestão do MinC. Pelo contrário. Se há alguma confusão, sobretudo na estratégia de comunicação, há manifesta boa vontade em resolver os problemas.

É preciso que se dê um tempo para as pessoas trabalharem. Depois, podemos fazer as críticas, as considerações, enfim. Da maneira como se fala atualmente do MinC, parece que nada está sendo feito. Isso é uma inverdade. Apenas para citar o caso do Rio Grande do Sul, nunca a região recebeu tantos recursos diretos do MinC como no último ano. Somente as obras do novo teatro da Ospa recebem 20 milhões de investimento direto do MinC. Ações como estas não podem ser levianamente desprezadas.

Os tais pontos de cultura estão congelados? Ora, façam-me o favor! Essa política cultural a retalho, embora importante no varejo para incrementar acessibilidade, pode oferecer inúmeros desafios. O primeiro deles é a gestão adequada dos fundos e recursos públicos por entidades pequenas e sem experiência. Não pode o MinC de uma hora para a outra sair patrolando orientações do Tribunal de Contas. O que querem os reclamistas? Que se baixem as guardas abrindo-se as portas para que o MinC possa ser enredado num escândalo similar aos das Ongs do Ministério do Turismo?

Além disso, em políticas dessa natureza, há chances de balcanização e instrumentalização de setores do MinC por movimentos organizados. Corre-se o risco de racionalização do clientelismo ao invés de se estimular poderosamente e autonomamente a cultura como se deseja. Não estou dizendo que tenhamos de jogar a criança fora junto com a água do banho. Apenas sublinhando que talvez devamos ir mais devagar com o andor, pois o santo pode ser de barro. Nesse sentido, o MinC parece ter dado uma parada para a reflexão, o que eu acho positivo. Deveríamos estar aplaudindo o MinC por abrir o debate sobre este tema, ao invés de torpedear inclementemente a Ministra por isso.

Quanto à Lei Rouanet, não há dúvidas que precisa mudar. Ela foi concebida num contexto diferente, em que o Brasil era uma economia mais periférica do que é hoje em dia, em que havia inflação, não existia a Internet, o mercado cultural e a economia eram ainda mais concentrados no Sudeste, etc.

É preciso sim discutir-se a acessibilidade dos produtos culturais gerados no âmbito da Lei, mas também a ampliação do leque de empresas aptas a participar do processo, a desconcentração dos investimentos e, sobretudo, o fortalecimento do fundo nacional de cultura, bem como a criação de outros instrumentos de financiamento, como uma eventual Lei da Dação, por exemplo, sobre a qual já falei inúmeras vezes, sempre pregando no deserto. Um dos grandes problemas do atual sistema é a dificuldade de se financiar a cultura em longo prazo. Os projetos submetidos à Lei Rouanet exigem organogramas de um ou dois anos, o que é pouco para determinadas ações culturais. A formação de acervos museais, por exemplo, é prejudicada pelo atual sistema de financiamento à cultura no Brasil. E esta deveria ser a base de qualquer política cultural sólida e de longo prazo, pois é sustentáculo, por exemplo, do que há de melhor no turismo cultural, outra indústria que pode ser fortemente geradora de renda e de empregos.

Há projetos mais business que não precisam de 100% de abatimento de impostos, enquanto outros, que investem na formação de leitores, de gestores, de plateias ou de acervos, mereceriam uma atenção mais carinhosa. Mas se daí depreendermos que proponentes iniciantes devem ser necessariamente privilegiados em detrimento dos proponentes experienciados, estaremos cometendo uma injustiça com quem trabalha direitinho e desprezando a meritocracia.

Falta ainda uma política mais afirmativa quanto à divulgação da cultura brasileira no exterior. Há um poderoso mercado de bens simbólicos a ser conquistado lá fora, o que potencializaria a geração de renda e a afirmação identitária aqui dentro. Muitas são as ações nesse campo que poderiam ser implantadas e pouco se fez até hoje, até porque apenas recentemente o MinC vem recebendo mais prestígio político e orçamentário do Governo. MinC e Itamaraty deveriam funcionar irmanados, o que não acontece.

É também lamentável que não tenhamos até hoje um bom observatório de cultura funcionando no País. Na França, por exemplo, há excelentes experiências nesse sentido, que poderiam nos estar servindo de modelo. Da mesma forma, muito se falou em incubadoras culturais, mas pouco se fez e concreto. Falta apoio de parte do MinC, do Ministério da Educação e dos órgãos de ciência e tecnologia a projetos pedagógicos consistentes na área de formação de gestores em cultura. As instâncias governativas precisariam dialogar mais, possuir mais projetos interinstitucionais e interdisciplinares. Em plena afirmação da cadeia da economia criativa no globo terrestre, não se explica que o Ministério do Planejamento não esteja diretamente envolvido em ações ligadas à cultura.

Bom, não quero me estender além da conta num simples post, mas a lista de sugestões poderia continuar, inclusive com indicação de ações práticas bem objetivas.

Diante de tudo isso, posso dizer que o pouco que vi do projeto do Deputado Pedro Eugênio, que pretende reformar a Lei Rouanet no Congresso, não me agradou. O que está ali sinaliza para um retrocesso. Este é o debate que poderíamos estar fazendo, ao invés de pessoalizarmos e partidarizarmos disputas.

*Publicado originalmente no blog Pé de Página

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Gunter Axt http://www.gunteraxt.com

Gunter Axt é gestor cultural e historiador. Professor da Unilasalle e pesquisador associado do Diversitas/USP. Para mais artigos deste autor clique aqui

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sexta-feira, 23 de março de 2012

MinC na Câmara dos Deputados

O que é de uma notícia ou de uma ideia se não debatida? Alguns gostam assim, outros não.

Pelo sim e pelo não, publicamos agora a versão do MinC sobre a presença e o desempenho da Ministra Ana de Hollanda lá na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados:

Retirado do site do MinC em 23/03/12 do endereço:

http://www.cultura.gov.br/site/2012/03/21/minc-na-camara-dos-deputados/

Ministra da Cultura participa de audiência pública para apresentar projetos e ações para 2012

A ministra da Cultura, Ana de Hollanda, e o secretário-executivo do MinC, Vitor Ortiz, estiveram presentes na manhã desta quarta-feira, 21 de março, na Comissão de Educação e Cultura (CEC) da Câmara dos Deputados para apresentar as ações prioritárias da Pasta ao longo de 2012. A ministra começou destacando a importância das emendas parlamentares que, em 2011, foram fundamentais para que houvesse os investimentos nas áreas de museus, livros e artes, como a reforma do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), que recebeu investimentos de mais de R$ 13 milhões.

“Queremos lembrar e destacar aqui a importância dessas emendas para nós, pois através delas podemos estender nossos projetos. Também investimos recursos da nossa lei orçamentária para complementar essas emendas. Pois, vemos algumas ações como prioritárias e ajudamos a compor o investimento necessário. Desse modo, conjuntamente, investimos para o crescimento da cultura brasileira”, disse a ministra.

Ao longo de 2012, o MinC deverá investir mais de R$ 142 milhões no projeto Mais Cultura/Mais Educação, realizado em parceria com o Ministério da Educação (MEC). O valor permitirá o lançamento de editais Mais Cultura nas Escolas e a criação de programas como o Cine Educação e Agentes de Leitura nas escolas do campo. A medida vai beneficiar dois milhões de alunos em oito mil escolas.

“Nesse início, nosso foco é a educação básica, mas em parceria com o Ministério da Educação, esse projeto vai se estender, e com isso iremos atingir novos estados, aprofundar estágios de ensino e atender metas especificas como o ensino de culturas afro e indígena nas escolas”, afirmou Ana de Hollanda.

A ministra também se referiu ao PAC Cidades Históricas, que foi inserido recentemente nas ações e programa do PAC, assegurando ações de preservação em 125 cidades, com orçamento previsto de R$ 100 milhões. A ministra também destacou a Rede de Cidadania Cultural, composta pelos programas Praças dos Esportes e da Cultura, Espaços e Bibliotecas Mais Cultura, Usinas Culturais e Pontos de Cultura.

Plano Brasil Criativo

Um dos projetos mais celebrados pelos deputados durante a apresentação de Ana de Hollanda foi o Plano Brasil Criativo, que será desenvolvido pela futura Secretaria de Economia Criativa e que terá o envolvimento de mais dez ministérios. Uma ação estruturante e transversal que irá alçar a cultura e o profissional da área de cultura a um novo patamar. A ação prevê a criação de escritórios em todos os estados brasileiros para dar suporte a artistas que hoje têm dificuldade de se inserir no mercado de trabalho formal, divulgar seu trabalho, questões previdenciárias e outras.

“Não queremos criar pop stars. Desejamos criar condições para que artistas possam viver dignamente de sua produção, de seu trabalho. Que seja profissionalizado e que o Brasil possa conhecê-los e, com isso, conhecer também toda nossa diversidade”, afirmou a ministra.

Fundo Nacional de Cultura

Outro ponto que foi destaque na apresentação foi a destinação de mais de R$ 133 milhões do orçamento do Fundo Nacional de Cultura para a aplicação em programas prioritários, já no primeiro semestre. Entre os programas beneficiados estão o Cultura Viva (R$ 46 milhões); o Plano Brasil Cultural, os microprojetos culturais da Bacia do Rio São Francisco e a recuperação de 57 imóveis em risco no centro histórico de Salvador.

Para o presidente da Comissão de Educação e Cultura, deputado Newton Lima (PT-SP), a apresentação reflete o comprometimento da gestão do MinC com a cultura brasileira e que os números representam avanços importantes para área. “Os nobres colegas presentes nessa audiência devem ter ficado felizes com o que nos foi apresentado. E quero colocar essa comissão à inteira disposição para que possamos avançar em pautas importantes que tramitam na Casa, como a aprovação do ProCultura”, disse o deputado.

Veja as diretrizes do MinC para 2012

(Texto: Marcos Agostinho, Ascom/MinC)

(Fotos: Janete Lemos)

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quinta-feira, 22 de março de 2012

Visão cultural anacrônica caracteriza audiência pública de Ana de Hollanda na Câmara

Retirado do Cinema & Outras Artes em 22/03/12 do endereço:

http://cinemaeoutrasartes.blogspot.com.br/2012/03/visao-cultural-anacronica-caracteriza.html

Por Maurício Caleiro

A audiência pública de Ana de Hollanda na Comissão de Educação e Cultura (CEC) da Câmara dos Deputados, realizada ao final da manhã de hoje, dissipa qualquer eventual dúvida quando ao anacronismo de sua visão das relações entre cultura e internet.

Foi um espetáculo deprimente: ante arguidores em sua maioria anestesiados, desinteressados, a ministra da Cultura demonstrou não possuir os conhecimentos mínimos requeridos de um gestor cultural em sua posição, ostentando uma postura que choca pelo primarismo – expressado numa visão reducionista da cultura tão-somente enquanto produto cultural comercializável -, pelo conservadorismo – em contraste com o discurso da candidata Dilma – e, sobretudo, pelo atraso intelectual - ficou claro que as concepções de Ana quanto às relações entre produção cultural, mercado e internet apresentam uma defasagem de décadas e não se coadunam com os fluxos culturais que caracterizam o mundo contemporâneo.

A ministra afirmou temer pelo futuro da cultura brasileira devido à pirataria e à internet. Ou seja, para ela, a rede mundial de computadores, cujas imensas possibilidades de produção e circulação cultural são exaltadas por pesquisadores do porte de um Jesus Martín-Barbero, representa uma ameaça, e não um devir.

Foi constrangedor ouvir uma figura ligada a uma tradição familiar caracterizada pelo culto à inteligência e pela participação política progressista proferir uma visão a um tempo tão retrógrada, desinformada e, ao mesmo tempo, tão contrária ao bem coletivo e favorável ao lucro privado. A ministra deu mostras de confundir troca de arquivos pela web com furto e, assim, chamou veladamente tais internautas de ladrões.

Causa enorme preocupação a constatação de que o órgão máximo de gestão da cultura brasileira está sob o comando de alguém tão despreparado. É ingenuidade, porém, a crença de que o problema do MinC seja de ordem individual e que uma simples troca de nomes resolveria a questão. Ana de Hollanda é uma peça da política federal de cultura do governo Dilma Rousseff, e qualquer mudança só será efetiva se a ideologia orientadora de tal política for alterada a favor de uma abordagem positiva da cultura digital, da retomada dos grandes projetos de inclusão cultural da gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira, hoje claramente boicotados, e do fim da visão mercadista e atrasada de direitos autorais que colocou o suspeitosíssimo Ecad no centro da cena cultural brasileira - a qual ora se encontra muito aquém de suas imensas potencialidades, em larga medida devido ao estrabismo cultural do Estado.

A audiência de Ana na Câmara dá-se em um momento em que a insatisfação acumulada pela classe artística, por ativistas digitais e pelos produtores culturais encontra-se na iminência de transbordar. Circula um manifesto, que une tanto artistas de centro-esquerda quanto do campo oposicionista, pedindo a substituição de Ana por Danilo Miranda, diretor cultual do SESC. Os ativistas digitais, que foram ponta-de-lança durante as eleições, formam certamente o grupo mais insatisfeito: se sentem traídos, dada a disparidade entre os compromissos com a cultura digital assumidos em campanha - para a qual contribuíram intensamente - e a postura mercantilista e corporativa assumida pelo MinC.

Dilma parece dar, cada vez mais e a um número cada vez maior de pessoas, a impressão de que seu governo concentra-se sobretudo em um esforço gerencial, alegadamente “desideologizado”, da economia – e que tudo o mais – políticas de gênero, educação, cultura - é supérfluo. A classe artística é numericamente pequena, mas tende a ser politicamente mais volátil e a ter um grande poder de influência. A insistência no retrocesso das políticas culturais, do qual Ana de Hollanda tornou-se o símbolo, além dos graves danos à cultura, à cidadania e à segurança jurídica na internet que já vem causando, pode vir a cobrar um alto preço eleitoral no futuro.

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