quarta-feira, 20 de abril de 2011

Obra de drenagem revela porto de tráfico de africanos escravizados no Rio de Janeiro

Publicado originalmente por Daiane Souza no site da Fundação Palmares e retirado em 20/04/2011 do endereço: http://www.palmares.gov.br/?p=10702

 

Foto: Divulgação/Museu Nacional-UFRJ

Foto: Divulgação/Museu Nacional-UFRJ

Marco de identificação do calçamento do Cais do Valongo, revelado pelas obras

Por Daiane Souza

Tesouros do Brasil Imperial estão sendo revelados por uma obra de drenagem na Zona Portuária do Rio de Janeiro. Há pouco mais de um mês funcionários da prefeitura carioca encontraram duas importantes referências do século XIX: o Cais do Valongo – onde desembarcaram mais de um milhão de negros escravizados; e o Cais da Imperatriz – construído para receber Teresa Cristina, que se casaria com Dom Pedro II.

O tesouro arqueológico estava escondido sob a Avenida Barão de Tefé da Zona Portuária há pelo menos um século. A estrutura do antigo Cais da Imperatriz surgiu com as escavações para a revitalização do local e, logo abaixo dele, surgiram também evidências do que seria o Cais do Valongo, o maior porto de chegada de escravos do mundo.

PESQUISA – No início, a equipe do Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que acompanhava a obra não tinha sequer certeza da existência do Valongo. “Não sabíamos se havia sido completamente destruído ou se dele restava ainda algum vestígio”, afirmou Tânia Andrade Lima, pesquisadora responsável pelas escavações, em documento encaminhado à Fundação Cultural Palmares.

Segundo o relatório, os achados representam mais que as pedras lavradas que compõem os calçamentos dos cais. Foram encontrados vestígios de cultura de grupos africanos e afrodescendentes, como cachimbos de cerâmica, búzios usados em práticas religiosas e botões produzidos a partir de ossos de animais. A descoberta é considerada de grande relevância para o resgate e a manutenção das memórias da cidade e do país.

PRESERVAÇÃO - Agora, o governo carioca pretende mostrar ao mundo o lugar onde desembarcaram milhares de homens, mulheres e crianças vindos de África para mudar definitivamente a face e a cultura do povo brasileiro. Para isso já se fala na criação de um memorial que armazene o material encontrado e o histórico da rotina que se seguiu da chegada à venda dos escravizados.

Enquanto as possibilidades são discutidas, a idéia é integrar as descobertas históricas ao novo desenho urbano local, criando um centro de visitação. Já os trabalhos de identificação, caracterização e preservação seguem minuciosos nos laboratórios da UFRJ, ao mesmo tempo em que a prefeitura instala as novas galerias pluviais, desviando o percurso das manilhas, para não destruir o antigo cais.

Foto: Divulgação/Museu Nacional-UFRJ

Foto: Divulgação/Museu Nacional-UFRJ

Botões produzidos a partir de ossos de bovinos cortados com ferramenta circular

Foto: Divulgação/Museu Nacional-UFRJ

Foto: Divulgação/Museu Nacional-UFRJ

Cachimbo de cerâmica feito e utilizado por negros escravizados

Foto: Divulgação/Museu Nacional-UFRJ

Foto: Divulgação/Museu Nacional-UFRJ

Búzios utilizados nas práticas religiosas

Foto: Divulgação/Museu Nacional-UFRJ

Foto: Divulgação/Museu Nacional-UFRJ

Paralela do Cais da Imperatriz sobre o Cais do Valongo

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